terça-feira, 1 de maio de 2012

Vaidade Vil



Quando fitei a caixinha de Rivotril anteontem
me despedi da substância com a quase certeza
de seu armazenamento
Poderia crer que abriria um dia distante
pois anteontem tudo era tão distante 
mas quase a abro neste momento

Divaguei na poltrona diante dos olhos dos gatos 
e mastigava os amidos em ato mecânico depois do telefonema
Foi ficando claro o tamanho da vaidade
coleciono a como um mecenas
e tudo seria tão belo, tão lindo
se esse Quixote não fosse um estratagema

Talvez ele não seja
mas foi entregue à vil vaidade
seu amor depende da taquicardia
tão quanto da reciprocidade
tão óbvia quanto a soberania
tão melancólica quanto essa inverdade.

                                         Dennis Lurm

domingo, 22 de abril de 2012

Wumpscut - your last salute (air forge remix)

Pin up bidimensional by Dennis Lurm


A idéia da realidade que se forma através de uma ilusão sempre foi minha idéia fixa, portanto hoje nesse ócio dominical e enfadonho me armei de papelão, algumas revistas e uma luminária para criar esse pequeno vídeo de bidimensionalidade. 
A música de fundo se chama "Whispered in Your Ear"  do Faith And The Muse!

sexta-feira, 23 de março de 2012

" O HOMEM QUE RESOLVEU CONTAR APENAS MENTIRAS"

Naquela manhã, acordou disposto a só contar mentiras. A não dizer uma única verdade. A ninguém.Nem à própria mulher; E assim quando afirmou: "vou para o trabalho",empregou a primeira mentira.Não ia.Tinha resolvido faltar,esquecer o escritório, a mesa, os papéis. Parar, ficar na rua. E quando disse bom -dia para o zelador do prédio, também mentia,porque odiava o zelador,um oportunista, que não conservava o prédio,fazia fofocas entre empregadas,pedia gorjetas,ganhava porcentagem na compra de materiais de limpeza.E quando disse o endereço ao motorista de táxi,também mentia, não pretendia ir para aquele lugar. Mas o chofer exigira o destino porque as pessoas vivem exigindo coisas.E nem sempre temos vontade ou possibilidade de satisfazer. E as exigências crescem e se tornam parte de nossa vida diária.
Nos acostumamos com elas, nos acomodamos, sem perceber que cada concessão é um pedaço da gente mesmo, envenenado, que a  gente engole.E quando o homem entrou no bar e pediu café, mentia,porque não queria café.Estava apenas fazendo um teste, enquanto observava o gesto maquinal daquele empregado que destacava uma ficha e a entregava.Será que aquele funcionário,alguma vez,já imaginou que alguém pudesse não querer café? Pedir, por pedir, mas não querer?Nem sequer desejar ver a xícara fumegante?
Com a ficha na mão,saiu pela rua.Outra mentira, não queria ficar na rua.Mas se entrasse no escritório,seria mentira maior.Odiava o escritório,o emprego,os colegas.De duas mentiras ,preferiu a menor, ainda que,ponderando,descobrisse que,ficar com a mentira menor era igualmente fuga,mentira,porque nesse dia tinha decidido mentir. E quando se decide uma coisa, o melhor é levá -la até o fim.
Andou.Pensando como a cidade era bonita com seus prédios batidos de sol e os vidros dando mil reflexos.Bonita com a gente que andava apressada para trabalhar e construir alguma coisa.Bonita na tranquilidade da vida, no sossego das casas,na calma que se estampava nos rostos das gentes.Bonita no que oferecia de futuro e de perspectivas.Bonita nos carros que andavam em fila,ruidosamente, um atrás do outro,sempre para frente, sempre para frente.Bonita na fumaça negra que escapava dos veículos e subia em espirais,milhares de fumaças reunidas, formando uma bela nuvem negra, como um negro véu que surgia sobre a terra, empanando o céu.
Andou sem querer andar.Viu, sem querer ver.Sentiu sem querer sentir,Cansou sem querer cansar.Tudo uma  grande mentira neste dia.Como mentira era a vida que ele vivia,cotidianamente,falsificada,pré fabricada,exaurida,imposta.Suada.Que repousante era viver este dia da mentira.Negar tudo.Reviver.
Andou até a hora de voltar para casa.Outra mentira, não queria voltar para casa,o lar, o aconchego, o refúgio, a fuga.A verdade de sua vida encerrada entre aquelas quatro paredes, a família, o amor,o carinho, o aconchego, o lar, o refúgio, a fuga, a realidade. Não voltar, e andar.Percorrendo as ruas, entrando nos prédios,conversando com as pessoas.No entanto, não tinha vontade de conversar.Sabia que precisava,mas não tinha vontade de falar.Falava pouco, sua língua andava entorpecida, sem prática.O medo é que um dia desacostumasse e perdesse a capacidade de se comunicar.Ficou parado numa esquina, esperando a noite passar. E quando o dia chegou, tinha acabado o período da mentira,podia enfrentar de novo a verdade.E disse bom dia ao porteiro,deu o endereço ao táxi,ligou para a mulher e o patrão.Disse no emprego que estava doente,E na verdade,estava.


                                Ignácio de Loyola Brandão

quarta-feira, 21 de março de 2012

DE VOLTA AO PORÃO...MADAME!!

DENNIS LURM NA SAÍDA DO MADAME
A famosa casa underground que já está na história da cidade de São Paulo reabriu este  ano, agora com o nome " Madame Underground Club" antes " Madame Satã" , mas para nós frequentadores da casa em suas fases sempre será o velho Madame, o velho Satã, eu apaixonado pela subcultura gótica e seu som , temi que nessa nova fase o alternativo tivesse embalado o underground com seu hipsterismo e a cultura do mainstremismo, não foi o que vi! graças à Deus, ou melhor ao Satã! rsrs
 A casa está mais gótica do que nunca e o espírito underground que construiu sua fama como um lugar único no Brasil está emoldurado pelo fantasmagórico porão, trouxeram dos anos 80 as performances,hoje muito mais elaboradas e teatrais que antes, quanto `a estrutura do local temos uma casa totalmente reformada e funcional, com direito a uma área de fumantes no mezzanino, tem coisa melhor que fumar um canelado olhando para a lua no mezzanino ao ar livre?
São Paulo merecia esse lugar de volta, dancei muito, como há muito não fazia, gostei dos clássicos na pista, mas acho que também é hora de se voltar para o novo som gótico e abraçar essa nova galera da geração 00, coisas como "Tristesse De La Lune"; " Blutengel"; "Ikon"; "Qntal";"Lycia";"Final Selection";" Plastique Noir", funcionariam perfeitamente na pista!!
Acima o vídeo de " Incubbus Succubus" do X Mal Deautschland rolando na pista do Madame!!

CÓLERA

O sol já alto entrava pela fresta da veneziana, Maria Zinha já decidira, não ia à escola, não tinha livros, o prazo esgotara, o diretor não permitiria sua entrada.Continuou deitada no colchão de palha, na penúria e fedendo a urina, tapou os ouvidos, seu pai chegara pro almoço, vinha furioso, abriu a porta aos berros:
- Maria Zinha, porque ocê num foi à aula?
 A menina encolheu se no colchão e em soluços balbuciava:
- Ô seu Mário num dexa entrá sem us livro!!
O pai cristão era também enérgico e violento, cerrou os dentes e arrastou a menina pelos cabelos até a cozinha, a mãe também cristã e submissa presenciava a cena calada enquanto soprava o carvão do fogão a lenha.
Maria Zinha chorava lágrimas e catarro, o pai segurava um açoite e esbravejava:
- Pára de chorar negrinha vadia!! senão te soco!!
- Não papai! pur favor! num me bate!!  A menina suplicava de joelhos e soluçava.
O pai era teimoso, estúpido quando chegava da roça com fome, levantou o açoite com uma mão e com a outra levantou a menina pelos cabelos, trancou novamente a dentadura e a açoitava com fúria, como fazia com a égua Bolinha quando esta empacava no riacho, sua ira era cega, humilhava enquanto batia:
- Tôma negrinha vadia!! negrinha vadia!!
O irmão Jeremias , já era rapazola e tinha ouvido os berros de Maria Zinha lá do cafezal, veio correndo, entrou na cozinha e pediu ao pai:
- Pára de bater papai !! a menina num vai aguentá!!
O pai saiu do surto , soltou os cabelos da menina  e esta caiu no rústico cimento batido,o vestidinho de chita pingava sangue do lábio gretado e coloria as margaridinhas opacas do tecido, Maria Zinha se concentrou nas pétalas tingidas, não encarava nada acima de sua cabeça. 
- Limpa isso negrinha nojenta!! Ordenou o pai
Maria Zinha soluçando baixinho começou a limpar com um trapo o próprio sangue que ainda pingava, espirrando rubro cólera e tristeza.
Sentaram se à mesa de madeira escura o pai, a mãe e o irmão para almoçarem, Maria Zinha continuou ali agachada junto ao fogão a lenha, sem forças para se levantar, humilhada, como um bicho ferido. Tentou levantar a cabeça e encarar o pai e deu de cara com a mãe a olha la piedosa, sentiu pena de si mesma e pensou que amanhã também apanharia, teve uma idéia,pegaria o bornal e se esconderia no galpão de Luzinete, fingiria ir `a aula. Bateu lhe uma enorme tristeza quando lembrou que teria que se esconder todos os dias no galpão de Luzinete,pelo menos era melhor do que apanhar, já que seu pai não tinha o dinheiro para lhe comprar os livros e mesmo assim a castigava, não entendia sua exclusão em sala de aula.
A professora, Dona Vilce, gostava muito de Maria Zinha e depois de três dias foi ao sítio saber o motivo de suas faltas.
- Treis dia??? ela faltou um dia só! Dona Professora! disse o pai já irritado.
Maria Zinha ouvia a conversa atrás da porta com as pernas trêmulas.
Quando Dona Vilce saiu , Maria Zinha desejou ser o cavalo que conduzia sua carroça, temendo já o que estava por vir, acompanhou com os olhinhos tristes a professora que sumia pela trilha de chão de terra com a sombrinha florida protegendo seus coques.
O pai entrou no quarto, com a velha expressão que sempre assombrou sua prole: testa franzida, dentes cerrados, na mão o velho açoite, não disse nada, só batia, com tanta força que se cansou.
A menina chorou a tarde inteira,suas pernas ardiam,os cortes ainda sangravam, chorava de ódio, de dor,de revolta, à noite sua mãe a chamou para o jantar, veio mancando até a cozinha, sentou se e a mãe pôs a sua frente o prato de sopa fumegante, o pai tomava sopa aspirando o caldo da colher, Maria Zinha encarou o pai enquanto ele estava concentrado na sopa,teve ódio dele e de si mesma, desejou não existir, não acordar no dia seguinte,olhou para as pernas roxas açoitadas, veio lhe um nó na garganta, engoliu o choro junto com a sopa, sem encarar o pai, sem encarar a miséria.
                                                                                         Dennis Lurm